sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Conselho

aos Filhos de Portugal, muito duro de roer:
Mensagem recebida de um emigrante a viver no estrangeiro:

Se és um jovem português,
atravessa a fronteira do teu País
 e parte destemido
 na procura de um futuro com Futuro
  
Porque no teu País
A Educação é como uma licenciatura
 tirada sem mérito e sem trabalho,
 arquitectada por amigos docentes
e abençoada numa manhã dominical

Porque no teu País
 É mais importante a estatística dos números
 que a competência científica dos alunos.
O que interessa é encher as universidades,
nem que seja de burros
  
Porque no teu País
 A corrupção faz parte do jogo
onde os jogadores e os árbitros
 são carne do mesmo osso
e partilham o mesmo tempero

Porque no teu País
A justiça é ela própria uma injustiça
porque serve quem é rico e influente
com leis democraticamente pobres
  
Porque no teu País
As prisões não são para os ladrões ricos
porque os ricos não são ladrões
já que um desvio é diferente de um roubo
  
Porque no teu País
 A Saúde é uma doença crónica
onde, quem pouco tem
 é sempre colocado na coluna da despesa

Porque no teu País
Se paga a quem nada faz
e se taxa a quem pouco aufere

Porque no teu País
 A incompetência política
é definida como coragem patriótica
  
Porque no teu País
 O mar apenas serve para tomar banho
 e pescar sardinhas

Porque no teu País
 Um autarca condenado à prisão pela justiça
 pode continuar em funções em liberdade
 passeando e assobiando de mãos nos bolsos
  
Porque no teu País
 Os manuais escolares são pagos
enquanto a frota automóvel dos políticos
é topo de gama

Porque no teu País
Há reformas de duzentos euros
e acumulação de reformas de milhares deles

Porque no teu País
A universidade pública deixou cair a exigência
e as licenciaturas na privada
tiram-se ao ritmo das chorudas mensalidades
  
Porque no teu País
 Os governantes, na sua esmagadora maioria
apenas possuem experiência partidária
 que os conduz pelas veredas do "sim ao chefe"
  
Porque no teu País
O que é falso, é dito como verdade,
sob Palavra de Honra!
 São votos ganhos numa eleição
  
Porque no teu País
As falências são uma normalidade,
o desemprego é galopante,
a criminalidade assusta,
 o limiar da pobreza é gritante
e a venda de Porsche e Ferrari ... aumenta

Porque no teu País
Há esquadras da polícia em tal estado
onde os agentes se servem da casa de banho
dos cafés mais próximos
  
Porque no teu País
 Se oferecem computadores nas escolas
apenas para compor as estatísticas
 do saber "faz de conta" em banda larga

Porque no teu País
 Se os teus pais não forem ricos
por mais que faças e labutes
pouco vales sem um cartão partidário
  
Porque no teu País
 Os governantes não taxam os bancos
porque, quando saírem do governo
serão eles que os empregam

Porque no teu País
És apenas mais um número
onde o Primeiro-Ministro se chama Alice
que vive no País das Maravilhas
mesmo ao lado do teu.
  
Foge!
E não olhes para trás!"

Fim de citação
Luís Braz

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Dívida: uma compulsão voraz...



Nas últimas quatro décadas, o globo desenvolveu uma compulsão voraz por dívida, explicada pela sua extraordinária capacidade em sublimar o presente em detrimento do devir. Em particular, a abundância de crédito barato sistemático permitiu diluir a ameaça que a ascensão dos mercados emergentes representava para o confortável modo de vida ocidental e, simultaneamente, de forma simbiótica, escorar a trajectória de industrialização das economias que abraçaram em pleno o capitalismo de mercado, já o século passado se fazia velho. 

Sem a explosão de dívida que começou a ganhar contornos bem definidos na década de 80, teria sido impossível a muitos países suster níveis de crescimento económico compatíveis com as aspirações de prosperidade eterna das sociedades modernas. Mas a dívida, como é bem sabido, mais não faz que convocar para o presente rendimento esperado no futuro. 

Para ser sustentável, o aumento do endividamento tem que ser acompanhado por uma expansão de investimento que permita gerar a riqueza necessária para acomodar as responsabilidades contraídas. Porém, existe neste processo uma enorme perversão que consiste na ilusão, nutrida por muitos economistas e políticos, que a natureza do investimento levado a cabo é irrelevante: o que importa é investir. Esse, contudo, não é o caso. Especificamente em resposta a políticas monetárias expansionistas, o investimento é transferido para os projectos mais sensíveis à taxa de juro, que só por acidente se mostrarão viáveis. 

Mas ainda que da estirpe errada, a vaga de investimento induz a surtos de prosperidade que os agentes económicos tendem, pela sua condição humana, a tomar por permanente. Por parecer realista, a ilusão pode delongar-se, tornando-a particularmente cruel, pois ela será destroçada. 

...de reabilitação penosa 

De tão ubíquo e inebriante, o endividamento hiperbólico não só se fundiu no paradigma forjado no pós-guerra fria, como também conquistou a primazia no universo terapêutico da política económica. Mas o mundo mudou; e hoje os efeitos devastadores da espiral de dívida foram já revelados de forma cristalina. Ainda assim, vastas secções do mundo económico e financeiro persistem em denegação. 

Perante a opção de aceitar graciosamente as consequências da conduta desregrada do passado ou de procrastinar no erro, a economia global parece inclinar-se inexoravelmente para mais uma alucinada ronda de endividamento - por uma boa razão: expirados que estão os efeitos do estímulo erigido sobre mais um estrato de dívida, a ameaça da derrocada volta a pairar vividamente sobre a economia global. 

A dieta impossível 

Na rentrée, a principal preocupação dos investidores tem revolvido em torno do sistema bancário global em face da crise da dívida soberana na Europa. Ainda que a exposição à dívida pública dos Estados-membros da área do euro esteja, na sua esmagadora maioria, confinada aos bancos europeus, a complexa teia de mútua exposição que envolve a generalidade dos bancos confere alcance sistémico a este tema, colocando uma forte pressão para a sua célere resolução. 

Foi neste contexto que BCE alargou o conjunto de facilidades de cedência de liquidez, provavelmente antecipando a deserção dos investidores do mercado de dívida pública europeia e o concomitante aumento da dependência dos governos face aos bancos para suprimento das suas necessidades de financiamento. Como os bancos não dispõem dos fundos, tem que ser o BCE, através de criação monetária, a provê-los. Ou seja, perante o risco crescente de colapso financeiro, o BCE opta por adicionar dívida à montanha já existente. 

A toxicidade dos níveis de dívida prevalecente no complexo dos países desenvolvidos poderia fazer supor que o problema está circunscrito aos países ricos; mas assim não é. Nos mercados emergentes, a dívida é também desproporcionada e perniciosa, apesar de menos saliente. O elo de ligação são os sistemas cambiais, com base no dólar ou no euro. Isto determina que qualquer expansão monetária da Fed ou do BCE se transmite de forma imediata para os sistemas financeiros dos mercados emergentes. 

A este respeito é interessante notar que a ausência de compromisso de novas rondas de quantitative easing por parte da Fed, ao implicar a cessação da principal fonte de crescimento de liquidez nos países com moedas ligadas ao dólar, desencadeou uma saída abrupta de capitais dos mercados emergentes sem paralelo desde 2008, provocando fortes depreciações das moedas emergentes. 

Acresce que esta súbita suspensão no influxo de liquidez constitui uma ameaça ao dinamismo de economias como a China ou o Brasil, das quais sai a procura que tem mantido a economia global à tona de água. Feitas as contas, parece que a tentação de implementação de mais uma dose de QE pela Fed surge inevitável: é que os custos de não o fazer são agudos e imediatos; enquanto que os benefícios são lentos e distantes. É por isso que custa tanto fazer dieta. 




José Maria Brandão de Brito
Responsável pelo Research de Mercados Financeiros do Millenniun bcp

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Carta aberta


Carta Aberta ao venerando chefe do estado a que isto chegou 

Senhor Presidente 

Há muito muito tempo, nos dias depois que Abril floriu e a Europa se abriu de par em par, foi V.Exa por mandato popular encarregue de nos fazer fruir dessa Europa do Mercado Comum, clube dos ricos a que iludidos aderimos, fiados no dinheiro fácil do FEDER, do FEOGA, das ajudas de coesão e mais liberalidades que, pouco acostumados, aceitámos de olhar reluzente, estranhando como fácil e rápido era passar de rincão estagnado e órfão do Império para a mesa dos poderosos que, qual varinha mágica, nos multiplicariam as estradas, aumentariam os direitos, facilitariam o crédito e conduziriam ao Olimpo até aí inatingível do mundo desenvolvido. 


Havia pequenos senãos, arrancar vinhas, abater barcos, não empatar quem produzisse tomate em Itália ou conservas em Marrocos, coisa pouca e necessária por via da previdente PAC, mas, estando o cheque passado e com cobertura, de inauguração em inauguração, o país antes incrédulo, crescia, dava formação a jovens, animava a construção civil, os resorts de Punta Cana e os veículos topo de gama do momento. Do alto do púlpito que fora do velho Botas, V.Exa passaria à História como o Modernizador, campeão do empreendedorismo, símbolo da devoção à causa pública, estóico servidor do povo a partir da marquise esconsa da casa da Rua do Possôlo. Era o aplicado aluno de Bruxelas, o exemplo a seguir no Mediterrâneo, o desbravador do progresso, com o mapa de estradas do ACP permanentemente desactualizado.


O tecido empresarial crescia, com pés de barro e frágeis sapatas, mas que interessava, havia pão e circo, CCB e Expo, pontes e viadutos, Fundo Social Europeu e tudo o que mais se quisesse imaginar, à sombra de bafejados oásis de leite e mel, Continentes e Amoreiras, e mais catedrais escancaradas com um simples cartão Visa. 
Ao fim de dez anos, um pouco mais que o Criador ao fim de sete, vendo a Obra pronta, V.Exa descansou, e retirou-se. Tentou Belém, mas ingrato, o povo condenou-o a anos no deserto, enquanto aprendizes prosseguiam a sanha fontista e inebriante erguida atrás dos cantos de sereia, apelando ao esbanjamento e luxúria. 

No início do novo século, preocupantes sinais do Purgatório indicaram fragilidades na Obra, mas jorrando fundos e verbas, coisa de temerários do Restelo se lhe chamou. À porta estava o novo bezerro de ouro, o euro, a moeda dos fortes, e fortes agora com ela seguiríamos, poderosos, iguais. Do retiro tranquilo, à sombra da modesta reforma de servidor do Estado, livros e loas emulando as virtudes do novo filão foram por V.Exa endossados, qual pitonisa dos futuros que cantam, sob o euro sem nódoa, moeda de fortes e milagreiro caminho para o glorioso domínio da Europa. Migalha a migalha, bitaite a bitaite, foi V.Exa pacientemente cozendo o seu novelo, até que, uma bela manhã de nevoeiro, do púlpito do CCB, filho da dilecta obra, anunciou aos atarantados povos estar de volta, pronto a servir. Não que as gentes o merecessem, mas o país reclamava seriedade, contenção, morgados do Algarve em vez de ostras socialistas. Seria o supremo trono agora, com os guisados da Maria e o apoio de esforçados amigos que, fruto de muito suor e trabalho, haviam vingado no exigente mundo dos negócios, em prol do progresso e do desenvolvimento do país. 

Salivando o povo à passagem do Mestre, regressado dos mortos, sem escolhos o conduziram a Belém, onde petiscando umas pataniscas e bolo-rei sem fava, presidiria, qual reitor, às traquinices dos pupilos, por veladas e paternais palavras ameaçando reguadas ou castigos contra a parede. E não contentes, o repetiram segunda vez, e V. Exa, com pungente sacrifício lá continuou aquilíneo cônsul da república, perorando homilias nos dias da pátria e avisando ameaçador contra os perigos e tormentas que os irrequietos alunos não logravam conter. Que preciso era voltar à terra e ao arado, à faina e à vindima, vaticinou V.Exa, coveiro das hortas e traineiras; que chegava de obras faraónicas, alertou, qual faraó de Boliqueime e campeão do betão; que chegava de sacrifícios, estando uns ao leme, para logo aconselhar conformismo e paciência mal mudou o piloto. 

Eremita das fragas, paroquial chefe de família, personagem de Camilo e Agustina, desprezando os políticos profissionais mas esquecendo que por junto é o profissional da política há mais anos no poder, preside hoje V.Exa ao país ingrato que, em vinte anos, qual bruxedo ou mau-olhado, lhe destruiu a obra feita, como vil criatura que desperta do covil se virou contra o criador, hoje apenas pálida esfinge, arrastando-se entre a solidão de Belém e prosaicas cerimónias com bombeiros e ranchos. 

Trinta anos, leva em cena a peça de V.Exa no palco da política, com grandes enchentes no início e grupos arregimentados e idosos na actualidade. Mas, chegando ao fim o terceiro acto, longe da epopeia em que o Bem vence o Mal e todos ficam felizes para sempre, tema V.Exa pelo juízo da História, que, caridosa, talvez em duas linhas de rodapé recorde um fugaz Aníbal, amante de bolo-rei e desconhecedor dos Lusíadas, que durante uns anos pairou como Midas multiplicador e hoje mais não é que um aflito Hamlet nas muralhas de Elsinore, transformado que foi o ouro do bezerro em serradura e sobrevivendo pusilânime como cinzento Chefe do estado a que isto chegou, não obstante a convicção, que acredito tenha, de ter feito o seu melhor. 

Respeitoso e Suburbano, devidamente autorizado pela Sacrossanta Troika 

António Maria dos Santos Sobrevivente (ainda) do Cataclismo de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A pouca vergonha continua. Ao que isto chegou!

ISTO, É UM ESCÂNDALO!!!·
SILVA LOPES, 77 ANOS, NOMEADO ADMINISTRADOR DA EDP RENOVÁVEIS.

SILVA LOPES, com 77 (setenta e sete) anos de idade, ex-Administrador do Montepio Geral, de onde saiu há pouco tempo com uma indemnização de mais de 400.000 euros, acrescidos de várias reformas que tem, uma das quais do Banco de Portugal como ex-governador, logo que saiu do Montepio foi nomeado Administrador da EDP RENOVÁVEIS, empresa do Grupo EDP.
Com mais este tacho dourado, lá vai sacar mais umas centenas de milhar de euros num emprego dado pela escumalha política do governo, que continua a distribuir milhões pela cambada afecta aos partidos do centrão. Entretanto, o Zé vai empobrecendo cada vez mais, num país com 20% de pobres, onde o desemprego caminha para níveis assustadores, onde os salários da maioria dos portugueses estão cada vez mais ao nível da subsistência. Silva Lopes foi o tal que afirmou ser necessário o congelamento de salários e o não aumento do salário mínimo nacional, por causa da competitividade da economia portuguesa.. Claro que, para este senhor, o congelamento dos salários deve ser uma atitude a tomar (desde que não congelem o dele, claro). Estes senhores não têm vergonha na cara? E foi este artista que há um ano disse na RTP1 que os ordenados portugueses estavam 20% acima do que deveriam estar!!!!! Os dele estão seguramente 1000 ou 5000% acima da média!!! VIVA A LUSITANIA! Por:

sábado, 22 de outubro de 2011

Identificação Nacional

Proposta de uma designação mais popular
e apolítica da identidade nacional

No Verão passado, alguns jovens portuenses encontraram-se numa capital europeia com um grupo de rapazes norte-americanos, que ignoravam a existência e a localização de Portugal. Alguns ainda alvitraram ser um Estado da América Central, ou do Sul, ou até mesmo uma nação africana. Ou seja, em qualquer caso - com perdão! - Uma república das bananas.

A ignorância dos outros não afecta a nossa dignidade nacional, mas a verdade é que, por muito que doa ao nosso patriotismo, talvez os yankees tenham razão. Sim, provavelmente Portugal, em termos legais, não exista.

Salvo melhor opinião, o país que ocupa a faixa ocidental da Península Ibérica e as ilhas adjacentes chama-se, oficialmente, República portuguesa. O chefe de Estado não é o presidente de Portugal, mas apenas da República portuguesa. O Parlamento nacional é tão-só, na terminologia oficial, a Assembleia da República, que nominalmente nem portuguesa é...

A própria lei fundamental, que deveria ser o texto constitucional da nação e não apenas do sistema político vigente é, em termos literais, a Constituição da República portuguesa, muito embora Portugal seja referido em alguns dos seus artigos, como o 1º, o 5º e o 7º. Outro tanto se diga da Procuradoria-Geral da República e de muitas outras entidades oficiais, que são em geral republicanas, mas não nacionais.

No Bilhete de Identidade também não consta o nome de Portugal, mas sim o da República portuguesa. Quer isto dizer que os respectivos titulares são, legalmente, republicanos-portugueses, como os cidadãos da Coreia do Sul são sul-coreanos e não apenas coreanos?! Nesse caso, os que só sejam portugueses, ou não sejam republicanos, são, em termos legais, apátridas, como qualquer coreano que não seja do Norte nem do Sul. Ou, pelo contrário, se o Bilhete de Identidade credencia o seu portador como português e não republicano-português, dever-se-á então concluir que o Estado correspondente não é a República portuguesa, mas Portugal?!

Para a nomenclatura oficial, a implantação da República significou, gramaticalmente, o fim de Portugal substantivo, porque antes o país não era a monarquia portuguesa, mas Portugal, ou o Reino de Portugal. Com o 5 de Outubro de 1910, o nome da pátria passou a adjectivo, perdeu a maiúscula e ficou reduzido à minúscula condição de uma secundária circunstância, um ápodo da organização estatal.

A República, ao sobrevalorizar o regime em detrimento da nação, eclipsou a expressão histórica da identidade de um dos mais antigos países da Europa que, por este motivo, ficou conotada com o anterior regime. Mas a denominação nacional, que remonta à fundação da nacionalidade e persiste na língua e na cultura popular, na filatelia, nas selecções desportivas, etc., não é propriedade exclusiva de nenhum sistema ou partido político.

No país vizinho não há aldeia em que não exista uma praça de Espanha, como entre nós todos os lugarejos têm uma avenida da República. Por que razão? Porque o que é óbvio não carece de explicitação, mas sim o que o não é. Os espanhóis não precisam de afirmar a sua forma de Estado, que é comum a quase toda a sua história, mas sim a sua recente e ainda polémica unidade nacional. Ao invés, a nacionalidade portuguesa está firmemente consolidada por oito séculos de pacífica unidade, mas não a República que, por este motivo, precisou de se afirmar através de uma nomenclatura oficial e artificial.

Sem anacrónicos saudosismos do Estado Novo ou da Assembleia Nacional, nem tomar partido sobre a questão do regime, talvez não fosse descabido, agora que de novo se fala de uma revisão constitucional e se questiona a pertinência do hino e da bandeira republicana, propor uma fórmula mais plural e popular da nossa identidade colectiva.

Mais de um século volvido sobre a implantação da República, é hora de que a nação se desprenda de uma aparentemente obsoleta terminologia ideológica e adopte, oficialmente, na sua Constituição, nos seus órgãos de soberania e nas suas entidades oficiais, uma designação menos facciosa e mais consensual. É algo, aliás, que já acontece nas nossas missões diplomáticas, que são denominadas embaixadas de Portugal e não da República portuguesa. Nada obsta, portanto, a que o chefe de Estado, a lei fundamental ou o parlamento o sejam também, apenas e só, de Portugal. 

Para onde vamos?


Creio que o facto de constantemente escrever sobre a situação que ocorre no nosso País, em crise, principalmente no consulado de José Sócrates, para não falar no despesismo excessivo que a presidência de Mário Soares trouxe ao país, pode trazer aos nossos leitores a ideia de que sou demasiado pessimista. Se assim é, ou sou eu que estou enganado ou estarão enganados os leitores que pensam de forma diversa. Acreditando nas notícias que diariamente chegam de todo o lado, nas medidas extraordinariamente pesadas que o governo de Passos Coelho tem sido obrigado a implementar, tornando Portugal no país que mais impostos cobra aos seus habitantes, em toda a Europa, medidas dolorosas e imprescindíveis para liquidar o empréstimo que Sócrates e o seu governo foi obrigado a solicitar, com a concordância obrigatória do Partido Social Democrata e do Centro Democrático Social, não nos parece que estejamos a ser tão pessimistas quanto ao nosso futuro, quanto possa parecer. Andámos durante vários anos a ser enganados por políticos corruptos, que nos mentiam com um descaramento impressionante e que fizeram do erário público a sua quinta, de onde foram retirados para o saco azul, devida e previamente preparado e camuflado, as suas benesses, locupletando-se com o que para ali iam depositando, tornando-se em autêntica «Boceta de Pandora», o que também contribuiu, em percentagem elevada, para a origem de todos os nossos males financeiros e económicos. À custa de obras, umas necessárias e outras impostas por questões partidárias e ainda outras cuja necessidade ainda hoje se não entende, depenou-se o pouco que os cofres estatais tinham e quando nada havia, recorria-se à Banca, que com o falso apoio Estatal ia emprestando o que podia e que por sua vez, quando não tinha, recorria à Banca estrangeira, sem se importar com juros, que acumulados, constituíram dívidas enormes que mais tarde ou mais cedo teriam que ser liquidadas. E um País independente, alegre, feliz, localizado na parte mais ocidental da Europa, com praias, montes e vales, lezírias e mar extenso, tornou-se num País pobre, triste e onde a esperança parece ter acabado. E pelos vistos, no dizer de António Barreto, acabará por desaparecer da face da terra, nos próximos cinquenta a cem anos da sua existência. E se assim for Deus proteja os nossos descendentes. Pessimista? Não, apenas atento. José de Viseu

PS: Lamento o facto de que obrigatoriamente tenho que concordar com o desabafo deste grande Homem e Senhor. Serão estas as infelizes ordens do destino a que os portugueses estão desgraçadamente condenados? E eu que adoro tanto o positivismo… obrigo-me também a perguntar-me: “Para onde vamos?”

CELEBRAMOS O QUÊ?

OPINIÃO


Por: Sara Jofre

Hoje o país "celebra" a República. Uma chuva de BMWs, Mercedes, Audis, invadem a Praça do Município, contrastando com discursos do "temos de poupar mais". Parece irónico que o regime que levou o país à bancarrota seja celebrado dentro do luxo mas com o discurso do coitadinho. Hoje fala-se do que se tem passado há 101 anos. Floreia-se, "emboneca-se", porque se falarmos verdade temos de sentir vergonha. Se reflectirmos um pouco percebemos que nada há a celebrar. Celebramos um regicídio? Celebramos a expulsão de uma família que nos servia e representava? Celebramos a perseguição aos opositores do regime da primeira república? Celebramos a noite sangrenta de 1921? Celebramos a imposição de uma ditadura por 48 anos? Celebramos a 3ª república falida? O que é tão digno de gastarmos o que gastamos a celebrar numa altura em que não temos o que gastar? As celebrações da república, com direito a Audis, BMWs, Mercedes, segurança privada, discursos, palácios são, na verdade, uma ofensa a um povo que está a ser perseguido pelos impostos, que não tem emprego, que passa fome. Celebramos para recordar algo que tentamos mostrar como algo positivo. Tentamos, há 101 anos colocar na memória colectiva uma recordação positiva de um acontecimento que, se reflectirmos bem, verificamos ser negativo. E no entanto esquecemos... Não só esquecemos que não temos nada para celebrar com o nome da data assinalada, como esquecemos aquilo que, de facto, merecia ser celebrado que é a Fundação do nosso país. Portugal foi fundado a 5 de Outubro de 1143. A partir dessa data crescemos. Com orgulho nos tornámos portugueses e alargámos as nossas fronteiras. Somos o país europeu que mais cedo ficou com as fronteiras definidas. Somos um país ancião, com uma bela história que começou a 5 de Outubro de 1143. Que cresceu e se expandiu pela mão dos reis. Que foi diplomata, que fez cedências e tentou manter-se orgulhoso. Tornámo-nos um império, dentro da monarquia, aquela que hoje esquecemos para celebrar a república que acabou com o império e arrisca a acabar com Portugal. O que temos, de facto, para celebrar?