quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Dívida: uma compulsão voraz...



Nas últimas quatro décadas, o globo desenvolveu uma compulsão voraz por dívida, explicada pela sua extraordinária capacidade em sublimar o presente em detrimento do devir. Em particular, a abundância de crédito barato sistemático permitiu diluir a ameaça que a ascensão dos mercados emergentes representava para o confortável modo de vida ocidental e, simultaneamente, de forma simbiótica, escorar a trajectória de industrialização das economias que abraçaram em pleno o capitalismo de mercado, já o século passado se fazia velho. 

Sem a explosão de dívida que começou a ganhar contornos bem definidos na década de 80, teria sido impossível a muitos países suster níveis de crescimento económico compatíveis com as aspirações de prosperidade eterna das sociedades modernas. Mas a dívida, como é bem sabido, mais não faz que convocar para o presente rendimento esperado no futuro. 

Para ser sustentável, o aumento do endividamento tem que ser acompanhado por uma expansão de investimento que permita gerar a riqueza necessária para acomodar as responsabilidades contraídas. Porém, existe neste processo uma enorme perversão que consiste na ilusão, nutrida por muitos economistas e políticos, que a natureza do investimento levado a cabo é irrelevante: o que importa é investir. Esse, contudo, não é o caso. Especificamente em resposta a políticas monetárias expansionistas, o investimento é transferido para os projectos mais sensíveis à taxa de juro, que só por acidente se mostrarão viáveis. 

Mas ainda que da estirpe errada, a vaga de investimento induz a surtos de prosperidade que os agentes económicos tendem, pela sua condição humana, a tomar por permanente. Por parecer realista, a ilusão pode delongar-se, tornando-a particularmente cruel, pois ela será destroçada. 

...de reabilitação penosa 

De tão ubíquo e inebriante, o endividamento hiperbólico não só se fundiu no paradigma forjado no pós-guerra fria, como também conquistou a primazia no universo terapêutico da política económica. Mas o mundo mudou; e hoje os efeitos devastadores da espiral de dívida foram já revelados de forma cristalina. Ainda assim, vastas secções do mundo económico e financeiro persistem em denegação. 

Perante a opção de aceitar graciosamente as consequências da conduta desregrada do passado ou de procrastinar no erro, a economia global parece inclinar-se inexoravelmente para mais uma alucinada ronda de endividamento - por uma boa razão: expirados que estão os efeitos do estímulo erigido sobre mais um estrato de dívida, a ameaça da derrocada volta a pairar vividamente sobre a economia global. 

A dieta impossível 

Na rentrée, a principal preocupação dos investidores tem revolvido em torno do sistema bancário global em face da crise da dívida soberana na Europa. Ainda que a exposição à dívida pública dos Estados-membros da área do euro esteja, na sua esmagadora maioria, confinada aos bancos europeus, a complexa teia de mútua exposição que envolve a generalidade dos bancos confere alcance sistémico a este tema, colocando uma forte pressão para a sua célere resolução. 

Foi neste contexto que BCE alargou o conjunto de facilidades de cedência de liquidez, provavelmente antecipando a deserção dos investidores do mercado de dívida pública europeia e o concomitante aumento da dependência dos governos face aos bancos para suprimento das suas necessidades de financiamento. Como os bancos não dispõem dos fundos, tem que ser o BCE, através de criação monetária, a provê-los. Ou seja, perante o risco crescente de colapso financeiro, o BCE opta por adicionar dívida à montanha já existente. 

A toxicidade dos níveis de dívida prevalecente no complexo dos países desenvolvidos poderia fazer supor que o problema está circunscrito aos países ricos; mas assim não é. Nos mercados emergentes, a dívida é também desproporcionada e perniciosa, apesar de menos saliente. O elo de ligação são os sistemas cambiais, com base no dólar ou no euro. Isto determina que qualquer expansão monetária da Fed ou do BCE se transmite de forma imediata para os sistemas financeiros dos mercados emergentes. 

A este respeito é interessante notar que a ausência de compromisso de novas rondas de quantitative easing por parte da Fed, ao implicar a cessação da principal fonte de crescimento de liquidez nos países com moedas ligadas ao dólar, desencadeou uma saída abrupta de capitais dos mercados emergentes sem paralelo desde 2008, provocando fortes depreciações das moedas emergentes. 

Acresce que esta súbita suspensão no influxo de liquidez constitui uma ameaça ao dinamismo de economias como a China ou o Brasil, das quais sai a procura que tem mantido a economia global à tona de água. Feitas as contas, parece que a tentação de implementação de mais uma dose de QE pela Fed surge inevitável: é que os custos de não o fazer são agudos e imediatos; enquanto que os benefícios são lentos e distantes. É por isso que custa tanto fazer dieta. 




José Maria Brandão de Brito
Responsável pelo Research de Mercados Financeiros do Millenniun bcp

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